31 maio 2011

Alcoolismo na Policia Militar

Rígida disciplina leva policial ao alcoolismo
O alcoolismo entre policiais militares e civis há muito já desperta a preocupação de integrantes dessas instituições. No caso da PM, o comando reconhece a existência do problema e oferece serviços de apoio a dependentes de álcool. A média mensal de atendimentos no Gabinete de Psicologia da Polícia Militar varia de 10 a 15 homens, a maioria de baixas patentes (soldados e cabos). O alcoolismo é, inclusive, responsável por 5% das aposentadorias na corporação. De acordo com o coronel-médico José Férrer Duarte, que, desde 1987, tem interesse pelo tema, a PM tem muito cuidado para que essa pequena parcela de dependentes não venha a manchar a imagem da instituição. Soldados entrevistados garantem que a rígida disciplina é o principal motivo que os levou à dependência. Na Polícia Civil, sindicalistas admitem que o problema é preocupante e reclamam da falta de um departamento de recursos humanos para tratar adequadamente os policiais doentes.



ENTREVISTA/W. policial dependente do álcool

"A bebida é o nosso escape"O soldado W. (inicial fictícia), 38 anos, fala em tom de voz alto e está sempre nervoso. Há 12 anos na Polícia Militar, garante que ficou dependente de álcool depois de ter entrado na corporação. Para ele, o estresse e o risco do trabalho nas ruas, além do difícil relacionamento entre superiores e subordinados, nos quartéis, são fatores que contribuem para levar um policial a procurar refúgio na bebida alcoólica. W. diz que se sentia oprimido e via a cachaça como um prazer, uma maneira de esquecer a rotina desgastante da vida militar. Submetido a tratamento médico, psiquiátrico e psicológico, o soldado ainda não conseguiu largar o vício, mas já tem consciência de que ele só atrapalha. Veja, a seguir, a entrevista.
Jornal do Commercio - O que o levou à dependência do álcool?
W. - Sem dúvida, o meu trabalho estressante na Polícia Militar foi o principal responsável por isso. Por causa dele, passei a ver a bebida como um escape, uma espécie de fuga. Isso também acontece com alguns companheiros meus.
JC - O que é mais desgastante na função policial?
W. - Não são apenas as rondas ostensivas que estressam. O sistema interno na corporação é muito opressivo e também contribui para essa fuga. A opressão deixa a gente nervoso e abalado. Às vezes, saía para a rua com mais medo dos meus superiores do que dos próprios bandidos.
JC - Quando você começou a beber?
W. - Uns oito anos após ter entrado na Polícia Militar. Depois de largar do serviço, corria para uma barraca e bebia cachaça, sozinho.
JC - Quando a situação chegou ao limite?
W. - De uns cinco anos para cá. Teve uma fase em que eu acordava e dormia com cachaça. Cheguei ao batalhão cheirando a álcool. Por causa disso, fui punido umas quatro vezes e até no xadrez fiquei.
JC - Quem o incentivou a procurar o Gabinete de Psicologia da PM?
W. - Tinha ouvido falar do trabalho das psicólogas e, como andava me sentindo muito mal, pedi a meu comandante que me encaminhasse.
JC - Já procurou outro tipo de ajuda?
W. - Passei seis meses no grupo dos Alcoólicos Anônimos e adorei. Nesse período, consegui parar de beber. Só que depois tive um problema - prefiro não revelar - e, infelizmente, tudo voltou ao que era antes.
JC - E agora, como está encarando esse tratamento?
W. - Estou me sentindo mais aliviado, principalmente com a terapia de relaxamento dada no Gabinete de Psicologia, embora o estresse ainda seja algo muito presente na minha vida. Tenho procurado beber menos, mas sei que é dificílimo para um alcoólatra deixar o vício. Apesar das dificuldades, acredito que vou melhorar. Pelo menos agora, chego em casa e minha filha de 10 anos não corre para o quarto, com medo de mim. Isso era uma coisa horrível e me fazia sofrer.

Dependência atinge PM de baixa patente

Eles são relativamente jovens, na faixa etária entre 30 e 40 anos, ocupam baixas patentes e executam serviços de policiamento ostensivo, vivendo sob permanente tensão e estresse. Esse é o perfil de policiais militares dependentes de álcool, detectado pelo Gabinete de Psicologia e o Serviço Social-Médico do Centro Médico-Hospitalar (CMH) da corporação. Por mês, há uma média de 10 a 15 homens se submetendo a tratamento psicológico em conseqüência do alcoolismo, responsável, também, por 5% das aposentadorias na Polícia Militar. "Esses PMs terminam sendo afastados de suas funções e obrigados pelos comandantes dos quartéis a se tratarem porque já viraram um problema para as unidades", atesta a primeiro-tenente e psicóloga Tereza Cristina Gouveia, chefe do Gabinete de Psicologia.
O alcoolismo entre policiais militares há muito vem preocupando integrantes da corporação. Em 1987, o então capitão José Férrer Duarte escolheu esse tema para a monografia que desenvolveu na conclusão do Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais. Na época, chegou a sugerir a criação de um centro de assistência aos dependentes de álcool na PM.
Por falta de pessoal, o sonho dele não foi realizado. Hoje, coronel-médico e diretor de Saúde do CMH, Duarte ainda acredita na possibilidade de organizar o espaço. "O alcoolismo atinge mais policiais do que se imagina e a questão é que, muitas vezes, as vítimas não admitem sofrer do mal", observa.
DIFICULDADES - Mesmo sem dispor do centro, o coronel acredita que a PM tem enfrentado a situação da melhor maneira possível. A assistente social do Serviço Social-Médico do CMH, Edilene Albuquerque Castro, há 16 anos na corporação, também concorda. No entanto, o seu trabalho ainda esbarra em dificuldades.
No ano passado, por exemplo, Edilene tentou elaborar uma pesquisa para identificar a quantidade de PMs dependentes de álcool em quatro batalhões. Ela decidiu fazer uma amostragem nas duas maiores unidades (em número de policiais) do interior e da capital. O resultado obtido, de apenas dois batalhões, não foi considerado satisfatório.
Do comandante do 2º BPM, em Nazaré da Mata, a assistente social recebeu resposta informando sobre a existência de 13 policiais com dependência alcoólica. No Batalhão de Radiopatrulha, duas companhias admitiram ter PMs sofrendo do problema, mas não revelaram a quantidade. "Nem sempre, os comandantes dos quartéis sabem reconhecer o policial alcoolista, principalmente porque muitos escondem a doença. Às vezes, só percebem quando chegam para trabalhar com sintomas de embriaguez", salienta.
Na pesquisa, Edilene quis saber se havia nos batalhões policiais faltando ao serviço, chegando atrasado, apresentando problemas no desempenho das funções, de indisciplina, ou dispensados por ordem médica. Segundo ela, esses fatores podem ser conseqüência direta do alcoolismo.
Para o assessor de imprensa da PM, tenente-coronel Antônio Neto, a questão do alcoolismo na corporação é semelhante à de qualquer grande empresa. "Temos 17 mil policiais, e o que ocorre aqui é reflexo do que acontece na sociedade", defende. O oficial garante que, apesar de a Polícia Militar fazer um trabalho para recuperar os integrantes com dependência de álcool, o número de PMs que são punidos por embriaguez em serviço é pouco. "Nem sempre, essa transgressão disciplinar significa que o policial é um alcoólatra", diz.
Bebida afasta soldado da convivência familiar

A família de um dependente de álcool ou de qualquer outro tipo de droga vive em permanente angústia. A estudante G.M. (iniciais fictícias), 18 anos, sabe muito bem o que é ter um pai alcoólatra. Cresceu vendo as constantes alterações de humor do soldado R.M. (iniciais também fictícias), 35 anos. "Ele já bebia antes mesmo de entrar na Polícia Militar, mas, nos últimos cinco anos, a situação se agravou", relata a jovem, que hoje pouco fala com o pai.
Preocupados com o risco que corria e poderia representar para a sociedade trabalhando no policiamento ostensivo, os parentes conseguiram transferir o soldado R.M. do batalhão onde era lotado para um outro órgão estadual, onde está executando funções burocráticas.
Segundo a estudante, o mínimo que o pai ingere de álcool já é suficiente para deixá-lo embriagado e nervoso. "Ele bebe mais nos finais de semana, ou quando chega cedo em casa", conta G.M., que, apesar de considerar o problema horrível, acostumou-se com a ausência paterna. "Meu pai até pergunta se eu e minha irmã estamos indo bem nos estudos, mas, no fundo, não é presente e nem carinhoso. A minha mãe é quem termina preenchendo esse lado", admite a adolescente.
TIRO - Das situações mais dramáticas, a jovem lembra que o pai, embriagado, chegou a disparar um tiro dentro da própria casa. "Mas não teve a intenção de atingir nenhuma de nós", ressalta. A família tentou encaminhá-lo para o Gabinete de Psicologia da Polícia Militar, mas o soldado insiste em dizer que não tem problemas. "A gente também não pode fazer qualquer comentário sobre o assunto que ele logo se sente atingido", comenta.
A jovem, que estuda no Colégio da Polícia Militar, diz saber de outros exemplos de policiais com dependência alcoólica na corporação, por colegas de aula. "Acho que a vida militar favorece muito esse problema por conta das exigências. O PM se torna agressivo e a fuga é através da bebida", afirma G.M..
Policial civil também sofre com dependência alcoólica

O número de policiais civis com dependência alcoólica também é considerável, a exemplo da Polícia Militar. Quem faz o alerta é o presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol), Henrique Leite. Ele não dispõe de nenhum estudo sobre o problema, mas fala com a experiência de quem conhece a instituição, há mais de uma década. "O estresse do exercício da função, a mudança de locais de trabalho e as dificuldades financeiras levam o policial ao alcoolismo", teoriza o presidente do Sinpol.
Para Henrique Leite, no entanto, a questão não é a Polícia Civil ter integrantes com dependência alcoólica. O mais grave, afirma ele, é a inexistência de um departamento de recursos humanos na Secretaria da Segurança Pública (SSP) para dar apoio adequado aos doentes. "O tratamento dado é a punição, muitas vezes equivocada. O policial alcoólatra é visto pelo comando como um relapso e termina sendo mandado para o Sertão", critica.
Henrique Leite diz que o caminho mais fácil, para a SSP, é deixar o policial civil com dependência alcoólica cometer algum delito, pondo a sociedade em risco, e depois demiti-lo. "A nossa cúpula, PAGINA: 3cid-20.apm FINAL DA COLUNA: 1infelizmente, trata o problema do alcoolismo com repressão", enfatiza.
O vice-presidente do Sinpol, Cláudio Marinho, concorda com o colega. "Há muito tempo, nós pedimos a criação de um departamento de recursos humanos para dar assistência ao policial civil em todos os níveis", ressalta, observando que um policial, seja ele militar ou civil, não pode ir para a rua combater a criminalidade estando estressado ou embriagado.
Marinho elogia a iniciativa da Polícia Militar de fazer um trabalho de apoio ao PM com problema de dependência alcoólica. "Tirando o salário e a escala de serviço da corporação, tudo na PM é melhor do que na Polícia Civil", afirma o sindicalista.
CORREGEDORIA - O corregedor da Polícia Civil, delegado Antônio Cavendish, assegura nunca ter aberto uma sindicância ou processo administrativo contra policial por causa de embriaguez. "Estou aqui desde setembro do ano passado e posso assegurar que isso não ocorreu. Quando um agente chega embriagado no serviço é feita a ocorrência e dada a punição. E só", explicou.
Cabo afirma que a rigidez do regime o levou ao alcoolismo

O cabo Z. (inicial fictícia), 41 anos, começou a beber na adolescência, mas não tem dúvida de que os seis meses em que permaneceu numa escola de recrutas da Polícia Militar significaram o primeiro passo para levá-lo à dependência alcoólica. "A vida era muito rígida e, ainda por cima, tive que me mudar para o interior", lembra. Há dois meses afastado do batalhão para se tratar, o militar assegura que decidiu procurar ajuda por iniciativa própria. "Eu mesmo pedi a meu comandante para me encaminhar à psicóloga", conta, com a voz trêmula.
Ele diz que, na época da escola de recrutas, aproveitava o pouco tempo livre de que dispunha para tomar cachaça com alguns colegas de turma. "A gente acordava às 5h da manhã, passava o dia fazendo atividades e, à noite, tinha que dormir às 21h. Nos finais de semana, ainda era escalado para trabalhar", relata, numa tentativa de justificar-se.
Segundo o militar, o problema agravou-se nos últimos cinco anos, quando passou a beber aguardente quase todos os dias. Apesar disso, garante nunca ter bebido em serviço. "Isso não, mas já cheguei embriagado no quartel e meu superior percebeu e me puniu", admite.
SÍNDROME DA ABSTINÊNCIA - Z. não conseguiu parar de beber porque sofre quando evita a cachaça. "Fico trêmulo, minha voz é confusa e tenho dificuldade de organizar as idéias. Mas o pior de tudo é a insônia. Nem com Diazepan durmo", relata.
Além dos problemas enfrentados no trabalho, o cabo Z. vinha tendo dificuldades de relacionamento com a mulher e os dois filhos, de 21 e 15 anos. Também começou a contrair dívidas em conseqüência do alcoolismo. "Minha família pede muito para que eu saia dessa e isso me sensibiliza. Imploro a Deus para conseguir".





Alcoolismo do estilista John Galliano

13/05/2011 - 19h24

Alcoolismo de Galliano preocupava Dior antes do incidente antissemita

A casa de alta costura Christian Dior já havia demonstrado preocupação com os "graves incidentes ligados ao alcoolismo" do estilista John Galliano antes do episódio antissemita e racista de que foi acusado em um bar de Paris, motivo pelo qual foi demitido, revela nesta sexta-feira o francês "Le Parisien".
Conforme mensagem interna da casa de moda consultada por essa publicação e com data de 28 de dezembro --antes de 24 de fevereiro, dia em que foi detido pela Polícia embriagado em um bar acusado de proferir ofensas antissemitas --na Christian Dior haviam alertado sobre os problemas do estilista e de sua suposta falta de profissionalismo.
Na nota, da qual "Le Parisien" publica extratos sem citar remetente ou destinatário, a partir da Christian Dior alguém diz que a casa estava "há anos, regularmente informada dos graves incidentes ligados ao alcoolismo de Galliano".

No mesmo documento, comentários indicavam que o estilista não respeitava suas obrigações profissionais e cita como exemplo ausências de Galliano em várias reuniões com o maior acionista da Christian Dior, Bernard Arnault, e que havia faltado sem justificativa aos ensaios do desfile que a marca tinha programado para o dia 24 de fevereiro.
"A situação já não é tolerável porque suas ausências imprevistas e injustificadas prejudicam o funcionamento das empresas Dior e Galliano. Em consequência, a continuidade de Galliano não poderá ser tolerada com esse tipo de incertezas sobre sua aptidão para completar sua missão", acrescenta o texto.
Em outra nota, assinada por "um alto responsável do grupo" e com data de 16 de dezembro, destaque para a conduta do costureiro considera "insuportável e inaceitável para as equipes que trabalham com ele".
"O que esta em jogo em nível financeiro e humano é importante demais", agregava a carta que circulou na cúpula da Christian Dior.
As informações apareceram no dia seguinte ao tornar-se público que Galliano seria julgado por injúrias racistas em 22 de junho, delito para o qual a pena máxima prevê até seis meses de prisão e multa de até 22,5 mil euros (US$ 33.330).
Em fevereiro, o costureiro fez supostamente insultos antissemitas e racistas a um casal sentado junto dele em bar num bairro central da capital francesa, de onde a Polícia o levou detido.
Por causa dessa denúncia, o jornal britânico "The Sun" postou na internet um vídeo amador no qual era possível ver o costureiro, aparentemente bêbado, elogiando Hitler.
Imediatamente depois, Dior afastou o costureiro do trabalho, tomou distância de seu comportamento e dias mais tarde o demitiu.
Em 2 de março, a Promotoria de Paris o acusou de "injúrias públicas contra pessoas por sua origem, por pertencer ou não a uma religião, raça ou etnia, proferidas contra três vítimas identificadas".
Um mês depois John Galliano foi demitido da companhia que leva seu próprio nome, por decisão do conselho de administração da empresa.

Bebedeira estimula surto de violência

BEBEDEIRA  ESTÍMULA  SURTO  DE  VIOLÊNCIA



Em 2008, pelo menos 27% dos casos de agressões domésticas e 20% dos homicídios foram cometidos por quem havia ingerido álcool ou drogas

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Garrafinha de pinga chega a custar R$ 1,50: catalisador de agressões
 
O álcool e as drogas são combustíveis da violência. Mulheres, crianças e homens longe das mesas dos botecos e dos copos acabam vítimas dos efeitos da bebida, da cocaína ou de outros entorpecentes. Nada menos que 27% dos casos denunciados de agressão física cometida dentro de casa em 2008 tinham como agressor alguém que havia consumido doses de álcool ou usado substâncias ilícitas. A mesma característica alcança quase 20% dos homicídios praticados no Distrito Federal no ano passado.

Os números fazem parte de um levantamento inédito e exclusivo feito pela Polícia Civil do DF (PCDF) nos boletins de ocorrência a pedido do Correio. Mostram a relação entre a criminalidade e o uso de bebida ou de entorpecentes. Para alguns, os índices podem até parecer pequenos. Mas não se engane. A realidade é mais alarmante, segundo a própria polícia. “Muitas vezes só descobrimos a motivação do crime com o avançar das investigações, o que não consta no boletim”, admite o diretor-geral da PCDF, o delegado Cléber Monteiro.
Além disso, alerta a psicóloga Angela Branco, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB): “Muitos dos episódios de violência não são reportados. No caso de agressões contra a mulher, a vítima não quer expor o companheiro. Em outras situações, é comum o medo de represália. Vivemos em uma cultura do medo”.

Dos 428 casos de maus-tratos que chegaram ao conhecimento da polícia em 2008, 15,65% tinham como catalisador o álcool ou as drogas. No caso das lesões corporais dolosas — quando há intenção de cometê-las —, a relação aparece em 17,22% das 9.009 ocorrências. O álcool e as drogas também foram responsáveis por 14,7% dos estupros do ano passado: dos 279 registros, os homens estariam bêbados em 38 e drogados em três. Os números se baseiam nas ocorrências de 2008 das 31 delegacias do DF.

Sem beber, o ex-marido de Solange (nome fictício) era “um amor de pessoa”. “Quando bebia, morria o homem e entrava em ação um monstro. Ele batia em mim, bagunçava a casa, quebrava tudo”, lembra a dona-de-casa de 27 anos, moradora do Varjão. Ela ainda tem medo. Solange e o companheiro decidiram oficializar o relacionamento depois de 13 anos juntos. Mas, no dia do casamento, ele exagerou na bebida e bateu nela. Há um ano e meio, a mulher desistiu de tentar mudá-lo. “Hoje ele vive bebendo na rua”, conta ela. E não paga pensão aos três filhos que deixou em casa. “Pense numa pessoa boa… É ele. O álcool o transformou”, lamenta a mulher.

Preço baixo
O levantamento da PCDF reforça um faceta perigosa do álcool. Cachaças vendidas em garrafinhas de pitchula têm feito a cabeça de muita gente no DF. A unidade de 500ml de bebidas com 39% de teor alcoólico sai por R$ 1,50, às vezes por menos. “Tem gente que dana a beber esse negócio pra criar coragem de fazer besteira. Eu não vendo mais dessas”, conta Manoel Antônio José, 65 anos, dono de um boteco no Paranoá. Ele passou a fazer redes de pesca para vender e compensar a retirada das pingas baratas da prateleira. “Essas danadas a gente não tem aqui também não. Quero é distância delas!”, emenda a proprietária de outro comércio ali perto.

Nem o poder público nem a família ou a igreja conseguiram livrar um garoto de 17 anos das drogas e, consequentemente, do crime. Ele cumpre medida socioeducativa no Centro de Internação de Adolescentes Granja das Oliveiras (Ciago). Segundo a mãe, de 56 anos, foi parar lá porque roubou e sequestrou. “Ele era valente sem a droga também. Mas quando usava quebrava até carro de polícia e trocava tiro com os policiais”, relata a moradora do Varjão. “Ele é um menino bom, ia de casa para a igreja. Mas com a droga virava outra pessoa. É triste. Estou achando que só carinho e amor de mãe não adiantam mais”, desabafa a mulher.

No DF, segundo o levantamento, os assassinatos têm relação clara com o consumo de álcool e de drogas. Pessoas bêbadas ou drogadas estavam envolvidas em 19,42% dos homicídios do ano passado. Isso quer dizer que a cada cinco homicídios, um envolveu o uso de bebida alcoólica ou entorpecentes. No caso das tentativas de homicídio, a porcentagem é de 15,77% — de um total de 1.002 ocorrências, 101 envolvem álcool e 57, drogas. “A bebida influencia quando é consumida pelo criminoso e também pela vítima. Uma pessoa fora de seu estado natural por causa da droga ou da bebida pode precipitar a violência e se colocar em risco de um homicídio”, observa Gabriel Andreuccetti, pesquisador do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa).

Um esbarrão
Eduardo Gomes, delegado de plantão da 6ª Delegacia de Polícia, que atende as regiões do Paranoá e do Itapoã, conhece bem a conexão entre o uso das drogas, ilícitas ou lícitas, com a criminalidade. Ele lembra a investigação de um homicídio há pouco mais de dois meses em que um homem só atirou porque havia bebido. O motivo do crime teria sido um esbarrão de um na namorada do outro. “Não consegui nem colher o depoimento dele. Ele não falava nada com nada”, afirma o delegado. Na manhã seguinte ao crime, o acusado acordou arrependido na cela.

Os números obtidos com exclusividade pelo Correio comprovam, na avaliação de Gomes, o que todo agente de segurança está cansado de saber: o problema social do álcool e das drogas desemboca no crime. “O cara bebe para se distrair. Mas quando bebe, se não apronta na rua, vai aprontar quando chegar em casa”, conclui. 



29 maio 2011

Coma Alcoólico

            estudante Bruno César Ferreira - 21 anos - entrou em coma alcoólico

Coma Alcoólico


O coma alcoólico é o coma causado pela intoxicação devido ao excesso de álcool no organismo. Esse quadro é grave e tem indicação para internamento urgente em unidade de cuidados intensivos hospitalar (UTI).
A  ingestão excessiva de bebidas alcoólicas intoxica o organismo e leva  o indivíduo primeiramente a um estado de sonolência, seguindo de um período em que não reage a nenhum estímulo ficando completamente desacordado ou inconsciente.
O excesso de álcool no corpo deve ser retirado o mais rápido possível para que os danos ao organismo sejam minimizados e o indivíduo recupere a consciência. O tratamento hospitalar para o coma alcoólico envolve a administração de glicose intravenosa.

Morto Por Coma Alcoólico

O corpo de Ernilson da Costa Tavares, 41 anos, foi encontrado na manhã de  (16/5/2011) por vizinhos, em cima de uma cama no quarto da pequena casa onde morava, localizada na rua Baixa Verde, bairro Taquari (Rio Branco/AC).
Segundo consta, o homem sofria de epilepsia, porém consumia muita bebida alcoólica. Ernilson teria passado o últio domingo bebendo e como o corpo da vítima não apresentava sinais de violência, a Polícia suspeita que ele tenha sofrido uma convulsão.



O álcool e o Crime

O Álcool e o crime – Psicologia Jurídica


Alguns fatos importantes sobre “apagões alcoólicos” valem a pena serem mencionados, principalmente quando se trata de possível defesa do réu.
O primeiro fato a considerar é que algumas pessoas experimentam “apagões” depois de consumir quantidades moderadas de álcool.
O segundo é que algumas pessoas observam os seus amigos bêbados fazerem coisas que eles (os amigos) não conseguem se lembrar no próximo dia
São relatórios típicos de bebados que dizem que não tinha a menor idéia do que fizeram influenciados pela bebida.
Quando esses fatos são utilizados como defesa da total inconsciência ou dos comportamentos de automatismos devem ser considerados com maior atenção.
A verdade!
Os jurados são geralmente tão interessado em depoimentos sobre drogas como são normalmente mal informados e tendenciosos contra as drogas.
Eles não serão influenciados por informações técnicas sobre neurotransmissores, com estudos realizados com ratos de laboratório ou com simplesmente uma grande explanação científica.
Alguns peritos estão mais interessados em impressionar os jurados do que em educá-los sobre as questões que precisam saber.
Deve-se no entanto, descrever a utilização das drogas usando-se de exemplos baseados na experiência quotidiana e fatos já publicados .
A maioria dos jurados provavelmente nunca usou drogas ilícitas (ou não vai admitir que já fizeram), mas a maioria deles pode ter usado medicamentos prescritos que têm efeitos comparáveis.
Na mesma linha, a maioria dos jurados não tiveram experimentado alguma sensação estranha, aberrante, disfunções mentais ou distúrbios que acreditam que a pessoa usuária tenha passado quando fizeram uso da droga e quando cometeram o delito.
Mas você pode ter certeza que muitos deles já tiveram a sua quota de dias ruins quando se sentiram em estado ansioso, depressivos ou em dias de mal-estar. Todavia, não será fácil acreditar que dias assim, propiciam maior chance de desvios psicológicos ou fantasias impressionantes.
A utilização de exemplos faz lembrar os próprios jurados de situações ocasionais e lapsos mentais que podem ajudá-los a se identificar com o problema do seu cliente.
Não há dúvida de que a toxicodependência é um dos graves problemas do nosso tempo, mas é importante que se deixe claro aos jurados que pelo menos alguns toxicodependentes são mais merecedor de compaixão do que desprezo.

Consumo de álcool em escola privada


Consumo de álcool sobe na escola privada


O consumo de álcool pelos alunos da rede escolar privada é maior em relação aos estudantes das escolas públicas, segundo levantamento da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), envolvendo 50.890 estudantes de 10 a 19 anos do País.
Entre os mais novos, de 10 e 12 anos, 27,9% das crianças da rede pública experimentaram bebida pelo menos uma vez ante 38,5% dos matriculados em colégios pagos. De 13 a 15 anos, o 60,3% dos estudantes da rede pública tinham consumido álcool – 12% a menos que entre os jovens do ensino privado.
Segundo especialistas, frequentemente o primeiro contato com a bebida ocorre nas festas de fim de ano e com a permissão dos pais. “As crianças começam a ingerir bebida alcoólica principalmente nas festas de Natal e ano-novo, incentivadas pelos pais, como brincadeiras”, afirma a psicóloga Alessandra Licco, que está se especializando em Saúde Mental de Crianças e Adolescentes pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Alessandra participou de um estudo que mostrou o aumento da incidência de bebidas alcoólicas em crianças no Brasil e na Espanha. De acordo com a psicóloga, há pais que molham a chupeta dos bebês na bebida. “Às vezes, o primeiro contato com o álcool começa antes mesmo dos 11 anos”.
Segundo o estudo, na faixa que vai dos 10 aos 12 anos quase 40% das crianças brasileiras matriculadas em escolas particulares consumiram bebida alcoólica ao menos uma vez em sua vida. Entre os 13 e os 15 anos, a ingestão de álcool, pelo menos uma vez, aumenta para 72% dos estudantes da rede particular.
Nesta sexta-feira, 17, o JT mostrou que 54,9% dos alunos da rede privada já usaram drogas psicotrópicas (crack, maconha ou cocaína) ao menos uma vez ante 40,3% da pública.
Para compor o 6º levantamento nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas entre estudantes do ensino fundamental e médio da rede pública e privada, foram ouvidos alunos das 26 capitais e do Distrito Federal, sendo 31.280 (61%) de escolas públicas e 19.610 (39%) das particulares.
Para a psicóloga Alessandra Licco, uma das explicações o uso do álcool entre crianças e adolescentes está na afirmação de sua personalidade. “A partir dos 13 anos, o jovem quer se contrapor aos pais e tendem a agir de modo contrário às orientações que recebeu”, afirma. “Mas os pais que bebem são modelos a serem copiados. Nessa fase, podem achar interessante e copiar”.
O consumo precoce de álcool pode afetar a formação neurológica das crianças e dos adolescentes e prejudicar o desempenho na escola e sua formação profissional, de acordo com a psicóloga.
Em 12 meses
Se o contato com a bebida alcoólica apresenta variações consideráveis entre alunos dos colégios particulares e públicos, as distâncias encurtam quando a pergunta do estudo se refere ao consumo nos últimos 12 meses. Ainda assim, as escolas particulares apresentam os maiores índices.
Na faixa de 10 a 12 anos, 19,3% dos alunos das instituições privadas fizeram uso de bebida alcoólica ao menos uma vez no último ano ante 14,1% daqueles matriculados em escolas públicas.
Entre os adolescentes de 13 a 15 anos, que ingeriram bebida alcoólica nos últimos 12 meses, 54,8% são de escolas particulares e 40,3% são da rede pública.


Alcoolismo : cresce numero de pessoas que procuram ajuda - VÍDEO

Aumenta a procura por tratamento contra o ALCOOLISMO, nos centros especializados no combate à doença em São Paulo. Muitos pacientes são moradores de rua e que agora encontraram motivos para dar a volta por cima. 







Maus tratos a dependentes químicos e Alcoólicos

Uma clínica particular para recuperação de dependentes químicos e alcoólicos de Londrina (PR) poderá ser interditada após denúncias de maus-tratos a pacientes. O pedido de interdição do Centro de Recuperação Libertad foi feito pelo Ministério Público em razão da prática de violência física e psicológica contra os internos. Na ação, a Promotoria diz que o centro mantém pacientes em situação de cárcere privado e utiliza medicamentos de uso controlado sem prescrição médica.
Na ação do promotor Paulo Tavares, de Defesa da Saúde Pública em Londrina, há depoimentos de 14 ex-internos no centro, de ex-funcionários e de familiares dos dependentes.
Os depoimentos, segundo Tavares, comprovam que os pacientes são "agredidos física e psicologicamente, inclusive com trabalhos forçados que ofendem a dignidade humana".
O coordenador da clínica, Moacir Mansur Marum, nega as acusações. Segundo ele, o que há é "perseguição" por parte do promotor.
Nos depoimentos anexados à ação, a qual a Folha teve acesso, são descritos castigos como manter um paciente por cinco dias em uma sala fechada, por exemplo. Outro caso relatado é de um adolescente que foi obrigado, com uma colher de cozinha, a fazer um buraco no solo do seu tamanho, como medida educativa.
A gerente de Saúde Mental da Secretaria Municipal da Saúde de Londrina, Ângela Lima, diz que a clínica vem sendo investigada há um ano. "O caso do Centro Libertad serve como reflexão sobre como funcionam as comunidades terapêuticas no Brasil." Segundo ela, existe hoje "um vácuo no acompanhamento por parte do Estado dessas comunidades, especialmente as particulares".
O Centro de Recuperação Libertad cobra, em média, R$ 600 por paciente. Atualmente, há 80 homens e 20 mulheres na clínica.
O presidente do Cemad (Conselho Municipal de Políticas Públicas sobre Álcool e outras Drogas), Carlos Roberto de Souza, diz que o conselho tem condições de encaminhar os pacientes para outras clínicas caso o pedido de interdição seja aceito pela Justiça.
O promotor pede a abertura de inquérito policial para investigar as denúncias de maus-tratos, lesões corporais e cárcere privado no local.

28 maio 2011

Dr. Drauzio Varella - Alcoolismo




Do ponto de vista médico, o alcoolismo é uma doença crônica, com aspectos comportamentais e socioeconômicos, caracterizada pelo consumo compulsivo de álcool, na qual o usuário se torna progressivamente tolerante à intoxicação produzida pela droga e desenvolve sinais e sintomas de abstinência, quando a mesma é retirada.
Fatores genéticos
Sem desprezar a importância do ambiente no alcoolismo, há evidências claras de que alguns fatores genéticos aumentam o risco de contrair a doença.
O alcoolismo tende a ocorrer com mais freqüência em certas famílias, entre gêmeos idênticos (univitelinos), e mesmo em filhos biológicos de pais alcoólicos adotados por famílias de pessoas que não bebem.
Estudos mostram que adolescentes abstêmios, filhos de pais alcoólicos, têm mais resistência aos efeitos do álcool do que jovens da mesma idade, cujos pais não abusam da droga.
Muitos desses filhos de alcoólicos se recusam a beber para não seguir o exemplo de casa. Quando acompanhados por vários anos, porém, esses adolescentes apresentam maior probabilidade de abandonar a abstinência e tornarem-se dependentes.
Filhos biológicos de pais alcoólicos criados por famílias adotivas têm mais dificuldade de abandonar a bebida do que alcoólicos que não têm história familiar de abuso da droga.
Intoxicação Aguda
O álcool cruza, com liberdade, a barreira protetora que separa o sangue do tecido cerebral. Poucos minutos depois de um drinque, sua concentração no cérebro já está praticamente igual à da circulação.
Em pessoas que não costumam beber, níveis sangüíneos de 50mg/dl a 150 mg/dl são suficientes para provocar sintomas. Esses, por sua vez, dependem diretamente da velocidade com a qual a droga é consumida, e são mais comuns quando a concentração de álcool está aumentando no sangue do que quando está caindo.
Os sintomas da intoxicação aguda são variados: euforia, perda das inibições sociais, comportamento expansivo (muitas vezes inadequado ao ambiente) e emotividade exagerada. Há quem desenvolva comportamento beligerante ou explosivamente agressivo.
Algumas pessoas não apresentam euforia, ao contrário, tornam-se sonolentas e entorpecidas, mesmo que tenham bebido moderadamente. Segundo as estatísticas, essas quase nunca desenvolvem alcoolismo crônico.
Com o aumento da concentração da droga na corrente sangüínea, a função do cerebelo começa a mostrar sinais de deterioração, provocando desequilíbrio, alteração da capacidade cognitiva, dificuldade crescente para a articulação da palavra, falta de coordenação motora, movimentos vagarosos ou irregulares dos olhos, visão dupla, rubor facial e taquicardia. O pensamento fica desconexo e a percepção da realidade se desorganiza.
Quando a ingestão de álcool não é interrompida surgem: letargia, diminuição da freqüência das batidas do coração, queda da pressão arterial, depressão respiratória e vômitos, que podem ser eventualmente aspirados e chegar aos pulmões provocando pneumonia entre outros efeitos colaterais perigosos.
Em não-alcoólicos, quando a concentração de álcool no sangue chega à faixa de 300mg/dl a 400 mg/dL ocorre estupor e coma. Acima de 500 mg/dL, depressão respiratória, hipotensão e morte.
Metabolismo do álcool
O metabolismo no fígado remove de 90% a 98% da droga circulante. O resto é eliminado pelos rins, pulmões e pele.
Um adulto de 70kg consegue metabolizar de 5 a 10 gramas de álcool por hora. Como um drinque contém, em média, de 12 a 15 gramas, a droga acumula-se progressivamente no organismo, mesmo em quem bebe apenas um drinque por hora.
O álcool que cai na circulação sofre um processo químico chamado oxidação que o decompõe em gás carbônico (CO2) e água. Como nesse processo ocorre liberação de energia, os médicos recomendam evitar bebidas alcoólicas aos que desejam emagrecer, uma vez que cada grama de álcool ingerido produz 7,1 kcal, valor expressivo diante das 8kcal por grama de gordura e das 4kcal por grama de açúcar ou proteína.

Usuários crônicos de álcool costumam nele obter 50% das calorias necessárias para o metabolismo. Por isso, freqüentemente desenvolvem deficiências nutricionais de proteína e vitaminas do complexo B.

O álcool e o coração


Quando perguntam se beber faz bem para o coração, nós, médicos, ficamos numa posição difícil.
Na década de 1930, ao autopsiar alcoólatras com cirrose, um grupo de patologistas teve a atenção chamada para a relativa ausência de placas de aterosclerose nas artérias. O álcool dissolveria as placas? - especularam eles.
Nos anos 1990, pesquisas epidemiológicas reforçaram as bases do que se convencionou chamar de "paradoxo francês": a baixa incidência de doenças cardiovasculares na França, apesar da dieta rica em gorduras característica dos franceses. O hábito do vinho às refeições, universal na França, foi adotado como explicação para a existência desse paradoxo. Rico em certos flavonóides, o vinho teria propriedades antioxidantes que melhorariam a função vascular, reduzindo o número de ataques cardíacos e derrames cerebrais entre seus consumidores.
Três trabalhos importantes conduzidos nos últimos cinco anos, no entanto, sugeriram que essas propriedades protetoras não se restringiam ao vinho - um deles, publicado na prestigiosa revista "Circulation", com o título sugestivo de "Vinho, Cerveja e Destilados e o Risco de Infarto do Miocárdio: Uma Revisão Sistemática".
Recentemente, foi publicado o estudo mais completo sobre o tema. Nele, 38.077 homens de 40 a 75 anos, acompanhados no período de 1986 a 1998, enviavam a cada dois anos informações sobre seu estado de saúde, estilo de vida, consumo médio de álcool, concomitância do uso com as refeições e sobre o tipo de bebida ingerida: vinho tinto, branco, cerveja ou destilados.
Os autores padronizaram as quantidades de álcool presentes em um drinque de cada bebida da seguinte forma: uma lata de 355 ml de cerveja contém 12,8 g de álcool; um copo de 120 ml de vinho, 11 g de álcool e uma dose de 50 ml de destilado contém 14 g.
No período, ocorreram 1.418 casos de infarto do miocárdio. Abstêmios e os que bebiam em média menos do que 5 g/dia apresentaram risco semelhante. Nos demais, o risco de infarto caiu gradualmente de modo inverso ao total de álcool ingerido: no grupo de 5g a 10 g/dia, a redução de risco foi de 17%; no de 10g a 15g/dia, foi de 31%; e no que bebia 50 g ou mais por dia (quatro ou mais drinques diários) a redução foi de 52%.
Os níveis de redução de risco foram similares nas faixas etárias dos 40 aos 79 anos, e independentes do uso estar ou não associado às refeições. Nenhuma bebida mostrou ser superior a outra: vinho, cerveja ou destilados foram igualmente eficazes na prevenção de ataques cardíacos, fatais ou não.
Relação entre frequência e benefícios
Um dos achados mais importantes foi a confirmação de que a freqüência do uso guarda relação direta com os benefícios cardiovasculares: o grupo que bebia apenas uma ou duas vezes por semana apresentou redução de risco de 17%, contra 34% de queda entre os que bebiam de três a quatro vezes por semana. Esse achado está de acordo com trabalhos anteriores, como o projeto Monica conduzido na Austrália: homens que tomam nove ou mais drinques num único dia por semana apresentam duas vezes mais ataques cardíacos do que os abstêmios. Já os que tomam dois drinques diários, de cinco a seis vezes por semana, têm o risco diminuído em 64%.
A associação entre uso moderado freqüente de álcool e redução do risco de infartos do miocárdio, confirmada num estudo com 12 anos de duração, em que os 38 mil participantes enviaram mais de 200 mil relatórios para análise, não pode ser considerada cientificamente irrelevante.
Conduta médica
O que os médicos devem fazer então? Aconselhar os homens acima de 40 anos a beber todos os dias?
Os Alcoólicos Anônimos - grupo de auto-ajuda que presta serviços de grande alcance na recuperação de dependentes do álcool - consideram que existem pessoas já nascidas com tendência a abusar do álcool. Para elas, a única maneira de escapar do alcoolismo é ficar longe da bebida. Segundo eles, o número desses, que por razões bioquímicas se encontram em situação de risco para alcoolismo, é substancial: de 10% a 15% da população adulta (12 a 15 milhões de pessoas no Brasil).
Os efeitos nocivos do alcoolismo são muito graves para corrermos riscos: violência, trauma, acidentes de trânsito, cirrose, câncer, psicoses, dissolução do núcleo familiar (para enumerar alguns). Substituir uma doença por outras não é o que a sociedade espera da medicina.
Como diz Ira Goldberg, da Universidade de Columbia: "Se o álcool fosse uma droga recém-descoberta, nenhuma companhia farmacêutica ousaria comercializá-la para diminuir a incidência de doenças cardiovasculares. Nem os médicos a indicariam para reduzir de 25% a 50% do risco de infarto, às custas de milhares de mortes por outras causas".
Pessoalmente, estou de acordo, mas acho que os dados sobre a redução de risco de doença cardiovascular - principal causa de morte na sociedade moderna - associada ao uso de álcool em quantidades moderadas devem ser discutidos com clareza, especialmente com as pessoas que já tiveram infarto ou correm grande risco de tê-lo.
Desde que não percam o controle, elas podem se beneficiar do uso de bebidas alcoólicas, sem esquecer que deixar de fumar, controlar o diabetes, a pressão arterial, os níveis de colesterol e fazer exercício físico são medidas ainda mais importantes na redução do risco de doenças cardiovasculares, câncer e muitas outras, com a vantagem de não provocar ressaca nem dependência química.

Alcoolismo em mulheres


O metabolismo do álcool nas mulheres não é igual ao dos homens. Se administrarmos para dois indivíduos de sexos opostos a mesma dose ajustada de acordo com o peso corpóreo, a mulher apresentará níveis alcoólicos mais elevados no sangue.
A fragilidade aos efeitos embriagadores do álcool no sexo feminino é explicada pela maior proporção de tecido gorduroso no corpo das mulheres,
por variações na absorção de álcool no decorrer do ciclo menstrual e por diferenças entre os dois sexos na concentração gástrica de desidrogenase alcoólica (enzima crucial para o metabolismo do álcool).
Por essas razões, as mulheres ficam embriagadas com doses mais baixas e progridem mais rapidamente para o alcoolismo crônico e suas complicações médicas.
Diversos estudos documentaram os benefícios do consumo moderado de bebidas alcoólicas, tanto em homens como em mulheres. A margem de segurança entre a quantidade de álcool benéfica e a que traz prejuízos à saúde das mulheres, entretanto, é estreita e nem sempre fácil de delimitar:

Doenças do Fígado
Num dos estudos mais completos sobre o tema foram acompanhadas 13 mil pessoas durante mais de 12 anos. Nele foi possível demonstrar:
1) para todos os níveis de consumo alcoólico, as mulheres correm mais risco de desenvolver doenças hepáticas do que os homens;
2) para os mesmos níveis de ingestão, o risco de cirrose nas mulheres é três vezes maior;
3) mulheres que tomam de 28 a 41 drinques por semana (1 drinque = 1 copo de vinho = 1 lata de cerveja = 50 ml de bebida destilada) apresentam risco de cirrose 16 vezes maior do que o dos homens abstêmios.

Doenças cardiovasculares
Mulheres que ingerem um drinque por dia apresentam menor probabilidade de morte por doença cardiovascular. Esse benefício também é válido para as mulheres diabéticas.
No entanto, a análise dos dados de dezenas de milhares de mulheres acompanhadas no “Nurses’ Health Study” revelou que tomar dois ou três drinques diários aumenta o risco de surgir hipertensão arterial em 40% e a probabilidade de acontecer derrame cerebral hemorrágico. Nas mulheres que bebem mais do que três drinques por dia o risco de hipertensão arterial duplica.
Mulheres que abusam de álcool desenvolvem também miocardiopatias mesmo usando doses mais baixas do que os homens.

Câncer de mama
A meta-análise de seis estudos importantes mostrou que mulheres habituadas a ingerir de 2,5 a 5 drinques por dia, apresentam probabilidade 40% maior de desenvolver câncer de mama. Esse risco aumenta 9% para cada 10 gramas de álcool (cerca de 1 drinque) diárias.
Osteoporose
O efeito inibidor da remodelação óssea do álcool é fenômeno bem conhecido em ambos os sexos. Mulheres com menos de sessenta anos que tomam de dois a seis drinques por dia têm risco maior de fratura de colo de fêmur e de antebraço.

Distúrbios psiquiátricos
Todos eles são mais prevalentes em mulheres que abusam de álcool do que em homens que o fazem e do que em mulheres abstêmias. A única patologia mais freqüente no alcoolismo masculino é a personalidade anti-social.
A prevalência de depressão em mulheres que abusam de álcool é de 30% a 40%. Estudos demonstram que a maior parte dessas mulheres bebe como forma de se livrar dos sintomas associados a quadros de depressão primária.
Anorexia e bulimia estão presentes em 15% a 32% das que abusam de álcool.
Mulheres que abusam de álcool tentam o suicídio quatro vezes mais freqüentemente do que as abstêmias.
Conseqüências para o feto
A ingestão de álcool durante a gravidez pode provocar distúrbios fetais que vão do retardo de desenvolvimento à chamada síndrome alcoólica fetal, caracterizada por anormalidades físicas comportamentais e cognitivas. Consumo de álcool durante a gravidez é considerado a principal causa evitável dessas anormalidades na infância.

Conseqüências psicossociais
Problemas familiares são mais comuns entre mulheres que abusam de álcool (entre os homens são os problemas legais e aqueles relacionados com o trabalho). O alcoolismo torna as mulheres mais sujeitas a agressões físicas. Mulheres que consomem quantidades exageradas de álcool geralmente vivem com parceiros que também abusam da bebida.

O fígado e o álcool

São tantas as conseqüências desastrosas das drogas na vida de um dependente que, muitas vezes, os danos que causam nos diferentes órgãos são postos em segundo plano. O grande problema que seu consumo acarreta (não esquecer que o álcool também é uma droga), é que no início seu efeito é agradável. Depois, o organismo cria resistência e exige doses maiores para repetir a sensação de bem estar.
Certo grau de embriaguez é a reação normal do organismo posto em contato com o álcool, mas todos conhecemos pessoas que bebem quantidades enormes e aparentemente não se abalam. Essa resistência à ação do álcool é o primeiro passo para que a doença do alcoolismo se instale e o fígado entre em processo de deterioração.
O problema maior em relação ao álcool é que ele custa pouco, é facilmente encontrado e legalmente obtido. Além disso, tem o poder de libertar-nos das inibições que nos constrangem. O jovem começa a beber na adolescência, fica mais extrovertido, mas não imagina que isso pode significar o fim de sua vida em 20 ou 30 anos porque seu fígado foi irremediavelmente destruído.
QUAIS SÃO OS PRIMEIROS SINTOMAS DA CIRROSE :
Drauzio - Quais são os primeiros sintomas da cirrose?
Luiz Caetano da Silva – Quando os sintomas aparecem, a cirrose está instalada embora isso não queira dizer que seja fatal. No entanto, é possível perceber alguns sinais de que a doença está progredindo. A resistência física diminui. Os pés incham e surgem as aranhas vasculares pelo corpo e muitas vezes nas mãos, a chamada palma hepática, ou então, a pele e os olhos ficam amarelados pela icterícia. O mais comum, porém, é o diagnóstico ser feito por um exame de laboratório. Plaquetas baixas ou transaminase (dosagem no sangue de uma enzima que existe no fígado) alterada são indícios bastante significativos. Quando o fígado está inflamado ou sofrendo alguma agressão, essa enzima escapa da célula hepática e vai parar na corrente sanguínea.
Drauzio – Então você recomenda que os pedidos de exame de sangue de rotina incluam também a transaminase?
Luiz Caetano da Silva - A transaminase é um exame importantíssimo e deve ser indicado sempre que se fizer um exame de sangue. É um exame barato que permite diagnosticar doenças do fígado em fase relativamente precoce. O ideal seria pedir duas transaminases (TGP e TGO) e a Gama GT. Este último exame é importante para avaliar as condições em que se encontra o fígado de quem bebe.
Drauzio – Quando a Gama GT está elevada e você percebe que a pessoa exagera um pouco na bebida, você recomenda que ela pare de beber completamente?
Luiz Caetano da Silva - Se eu não conhecer bem o problema, prefiro pedir que ela suspenda temporariamente o álcool e os medicamentos indicados para combater artrite ou reumatismo crônico, que por acaso esteja tomando, já que alguns antiinflamatórios interferem nos resultados das transaminases.
Depois de um mês, o exame é repetido. Se as dosagens voltarem aos níveis normais, teremos identificado a causa do problema. Caso contrário, é preciso continuar investigando e provavelmente só uma biópsia possibilitará o diagnóstico.
Drauzio – Como é feita a biópsia?
Luiz Caetano da Silva – Atualmente, a biópsia hepática é um exame simples. O paciente fica deitado numa maca e o médico, orientado por ultra-som, introduz uma agulha no espaço intercostal (entre as costelas) e acompanha seu percurso até o fígado onde é colhido o material. São retirados apenas alguns miligramas de tecido que nada significam para um órgão de um quilo e meio. O passo seguinte é examinar esse material no microscópio. Até hoje, nenhum aparelho de imagem moderno conseguiu substituir o microscópio nesse tipo de análise.
Antes da biópsia, verifica-se o tempo de coagulação do sangue para afastar a possibilidade de hemorragia ou sangramento interno.
Como é necessário atravessar a cápsula do fígado, que é bastante enervada, e o músculo, o paciente recebe uma anestesia local, semelhante à anestesia troncular que os dentistas aplicam para extrair dentes ou tratar de nervos.