24 junho 2011

Alcoolismo - Testemunho de pessoas que tem a doença


"Há sete anos não sei o que é sentir o gosto do álcool"

"Quis ser radical na escolha do meu tratamento. Não podia mais conviver com a preocupação do meu marido e das minhas filhas em relação a mim. Além disso, tinha medo de decepcioná-los. Por isso, optei por ser medicada e me livrar da bebida de uma vez por todas. Durante três meses usei a medicação e, por quatro anos, frequentei um grupo de apoio. Há sete anos não sei o que é sentir o gosto do álcool. Nenhum tratamento teria sido eficaz, porém, sem a compreensão e a paciência da minha família. Sem eles, na verdade, não teria nem mesmo notado que estava me tornando alcoólatra."
Maria Cristina de Camargo, 57 anos
"Aos 15 anos, saía para beber com amigos nos fins de semana e dizia a meus pais que estava indo à sorveteria. Bebia para me soltar. Nos tempos da faculdade de administração, todos os dias ia beber cerveja com os amigos. Por várias vezes, saí carregada de festas e não me lembrava de nada no dia seguinte. Quando fiquei grávida, diminuí a quantidade de bebida, mas não parei de beber. No fim do meu casamento, passei a beber muito, todos os dias. Cheguei ao ponto de abandonar a faculdade e não cuidar da minha filha como deveria. Sempre usei a bebida como muleta. Em outubro, meu pai me levou para uma clínica de recuperação. Meu maior sonho é abraçar minha filha, já livre do vício."*
Ana Paula do Carmo, 40 anos

"Tinha de beber para
me sentir normal"

"Eu comecei a beber aos 12 anos, com meus amigos. Depois da aula, nós íamos para o centro da cidade e bebíamos vinho, cerveja, vodca... No fim da tarde, voltava para casa, tomava um banho e já saía para beber de novo. Quando estava sóbrio, eu me sentia estranho; tinha de beber para me sentir normal. Aos 15 anos, meus pais me internaram pela primeira vez. Mas, naquela fase, eu não queria me tratar. Só agora tenho vontade de voltar a estudar, começar a trabalhar, melhorar a relação com minha família. Eu já magoei demais minha mãe. Ela ficava desesperada de me ver bebendo tanto. A lembrança do sofrimento de minha mãe é que me dá forças para tentar largar o álcool. Não quero mais fazê-la sofrer."
Newiton de Moura Silva, 20 anos
"Ao contrário da maioria dos homens, comecei a beber tarde, aos 25 anos, quando estava na faculdade de matemática. Durante um bom tempo, conseguia beber apenas socialmente. O álcool virou um problema quando fui demitido, aos 35 anos. Na ocasião, eu já tinha minhas três filhas e fiquei com muito medo de não conseguir outro emprego. Quando me dei conta, estava bebendo durante a semana e de dia – o que eu nunca havia feito antes. Um ano depois, quando consegui um novo trabalho, bebia nove doses de destilado diariamente – uísque, vodca ou pinga. Eu acordava e tomava duas doses. Era assim que eu tentava controlar os tremores nas mãos. Tinha muito receio de que o pessoal do escritório percebesse a minha crise de abstinência. Hoje estou me tratando. Quero me recuperar e receber alta tripla: dos médicos, da minha família e de mim mesmo."
Cícero Eduardo, 51 anos

Doces e perigosas

Falsa ilusão
As bebidas ice dão a sensação de que se consome pouco álcool. Deveriam virar caso de saúde pública


A iniciação ao álcool é cada vez mais precoce. A atual geração de adolescentes começa a beber regularmente aos 14 anos – quase três anos antes da média exibida pelos jovens há cinco anos. Os dados são do I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, de 2007, realizado pela Secretaria Nacional Antidrogas. A mudança preocupa porque, quanto mais cedo uma pessoa começa a beber, maior é a probabilidade de ela vir a ter problemas com o álcool: 9% dos adultos que deram os primeiros goles aos 14 anos passaram depois à categoria de dependentes. Entre os que começaram a beber após os 21 anos, esse índice é de apenas 1%, segundo a publicação Uso e Abuso de Álcool, lançada pela Universidade Harvard em 2008.
As meninas é que causam mais preocupação. As adolescentes de hoje compõem a primeira geração de mulheres que se igualam aos homens nos índices de alcoolismo. E essa não é uma tendência exclusivamente brasileira. "No mundo todo, as moças estão alcançando os rapazes no que se refere aos problemas relacionados ao álcool", disse a VEJA o epidemiologista americano James Anthony, professor da Universidade Esta-dual de Michigan. Entre outros motivos, elas se sentem estimuladas a competir com os garotos, como se a bebida fosse também uma área em que devesse prevalecer a equidade entre os sexos. "Como se um sinal de mulher bem-sucedida fosse beber feito um homem", acrescenta o psicoterapeuta Celso Azevedo Augusto.
Começar a beber exige persistência dos adolescentes, por causa do gosto forte e amargo do álcool. Mas esse obstáculo foi superado por uma invenção que deveria virar caso de saúde pública: os ices. As misturas docinhas de vodca com suco de fruta ou refrigerante fazem a alegria da moçada. São o combustível das baladas e festinhas caseiras, que invariavelmente terminam em muito vômito. "Os ices não apenas introduzem os jovens no consumo de álcool como os ajudam a ingerir doses cada vez maiores", diz o neurocirurgião Arthur Cukiert, do Hospital Brigadeiro, em São Paulo. Vendidos em todo lugar e vistos pelos pais como "menos ofensivos", podem ser mais devastadores do que outras bebidas. "Apesar de terem teor alcoólico semelhante ao das cervejas, são consumidos como limonada", diz a psicóloga Ilana Pinsky, professora da Unifesp. Um perigo. Mais um.

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