27 junho 2011

Alcoolismo : Vício ou Doença ?



Alcoolismo: vício ou doença?


A forma como se entende o alcoolismo determina também sua abordagem. Os especialistas no assunto não gostam de usar a palavra "vício" (muito usada comumente) porque ela remete a conotações cristãs moralizantes que mais prejudicam do que ajudam. Vamos entender melhor isso porque, de uma certa forma, todos têm "razão",

Evitar o termo "vício" tem como principal objetivo tirar o atributo de culpa consciente e intencional do dependente. Ser alcólatra não é divertido. É humilhante. Ninguém se submente a cenas tão violentas quanto ridículas por vontade própria.
Existem reais alterações químicas que ocorrem no cérebro do dependente após um certo nível de álcool no sangue. Este é um fato.

O alcoolismo é uma doença hereditária, filhos de alcólatras têm 75% de chances de desenvolver a dependência (todos os outros têm 50% de chances de se tornar alcólatras). Atenção, porém: se for alcoolismo pode ser outra dependência. A questão é a tendência a desenvolver ou não dependências. Conheço pessoas filhas de alcólatras que são dependentes de comida. Gastar dinheiro também pode se tornar uma obsessão.

O alcoolismo é mais do que uma doença física. Alcoolismo é também uma doença emocional eespiritual

Com "emocional" queremos dizer a psicologia que está na base da dependência. O alcoolismo provoca distúrbios de comportamento e de relação que já observei entre pessoas "normais", mas no alcólatra e em suas relações afetivas esses distúrbios são mais intensos e mais difíceis de serem desmascarados e/ou transformados. Exemplo disso é o sentimento de culpa. Quem não conhece um pai ou uma mãe que usam da chantagem emocional para obter do filho alguma coisa. Nesta malha de probições não ditas e de bloqueios silenciosos, uma pessoa pode ficar enredada por anos a fio, às vezes uma vida inteira. Mas no não-dependente químico existe uma chance maior de rebelar-se (santa rebelião). No alcolatra e em seus co-dependentes essa chance cai, talvez porque existe efetivamente um "mal" (o alcoolismo) que suscita pena e dó. O alcoolismo tira força moral, poder pessoal e auto-confiança.

Do ponto de vista psicológico, o comportamento do dependente pode, porém, ser chamado de vício, no sentido que gera uma deformação na percepção e na interpretação de fatos e relações que prejudica o inteiro de sua vida. O comportamento viciado (deformado) contamina o dos outros, que acabam se adequando ao mesmo padrão. Geralmente, o dependente usa de poder econômico, emocional ou físico para dominar seus familiares, daí uma "boa" razão para estes encontrarem um "equilíbrio" dentro do sistema viciado se adaptando a ele. Escrevi em outro tópico como lidar com um pai alcoólatra.

Agora, no que diz respeito ao plano espiritual, como entender o alcoolismo? É aqui que entram as religiões. Segundo os neo-protestantes (ou seja a leva de evangélicos dos últimos 40 anos), alcoolismo é coisa do demônio e o alcólatra precisa ser exorcisado. Muitos não acreditam nisso, mas quem viu um alcólatra em crise de brabeza sabe o quanto a pessoa que vêem está alterada. Há no dependente químico atacado uma componente realmente assustadora: seu rosto é diferente, feio, possesso, estranho. Sua voz e suas palavras são apavorantes e das mais baixas e agressivas. A raiva e o ódio que ele vomita nesses momentos beira o incompreensível, mesmo num contexto familiar difícil. Quem é essa criatura? Com certeza, não a mesma que conhecemos em seus momentos de calma. É muito fácil entender essa experiência como "possessão do demônio". Se o Mal existe, uma de suas manifestações é com certeza durante a crise agressiva de um alcólatra.



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