30 junho 2011

Alcoolização e cidadania



O sujeito entre a alcoolização e a cidadania: perspectiva clínica do trabalho

Cidadania combate a dependência
Professora da UnB defende concepção terapêutica na qual resgate da identidade e da auto-estima no trabalho diminui uso do álcool

Uma nova concepção para o tratamento do alcoolismo nasceu da experiência de mais de 20 anos da pesquisadora Heliete Karam,do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, no estudo das relações entre alcoolismo e condutas de alcoolização no ambiente de trabalho. Ela constatou que a afirmação do indivíduo como sujeito e cidadão são fatores de superação do hábito de beber e da conseqüente dependência química.

A pesquisadora aponta o álcool como um dos meios utilizados pelos indivíduos para resistir aos efeitos nocivos das pressões do trabalho. E propõe que o tratamento do alcoolismo e sua prevenção primária sejam repensados. Heliete apresenta proposta inédita de terapêutica, na qual o resgate do prazer no trabalho é fundamental para curar o alcoolismo.

Numa diferenciação bastante utilizada, considera-se o alcoolismo a perda total de liberdade face ao álcool, devido à necessidade orgânica de manter um determinado teor de etanol no corpo, com vistas a proporcionar seu equilíbrio neurovegetativo e uma aparente sensação de bem-estar psíquico. Já a alcoolização é o ato de ingerir álcool.

Tradicionalmente, o problema do alcoolismo é tratado com enfoque no indivíduo e na família, mas a pesquisadora encontrou no trabalho a causa e solução. Heliete passou os últimos seis anos na Universidade de Paris VII, orientada por Christophe Dejours, aprimorando sua metodologia para tratar o alcoolismo.

Segundo sua tese, as pessoas vivem em contínuo processo de construção do sujeito (quando o indivíduo é dono de suas ações, tem autonomia e legitimidade na sociedade, não se sente apenas como um número a mais). E para existir sujeito é preciso haver o exercício da palavra política, ou seja, de cidadania. Nas empresas e organizações, essa construção da identidade pode ser suspensa por práticas da chefia como intimidação, constrangimento, abuso de poder. Gera-se então sofrimento para quem não tem voz ativa dentro do trabalho. O fenômeno da alcoolização aparece como um sinal de bloqueio temporário ou definitivo do movimento de construção do sujeito.

Entende a professora que o alcoolismo preenche o lugar da não-linguagem. Ocupar a boca com o álcool em vez da palavra é uma forma de injetar linguagem, lá, onde a linguagem não circula. O tratamento passa por um resgate da identidade profissional da pessoa. Por isso, a necessidade de reformulação das instituições, resgatando o exercício da cidadania no local de trabalho. A cidadania vista como um processo pleno e a ser exercida em qualquer lugar e em tempo integral.

A solução proposta está no funcionamento da palavra como um motor para o resgate da cidadania. Entretanto, somente a circulação da palavra não assegura que ela seja livre, sobretudo quando está submetida a uma ou mais ideologias. Torna-se necessária a criação de espaços de discussões, deles participando os trabalhadores, conversando permanentemente sobre as regras e a própria organização do trabalho. Esse recurso comprovou-se eficaz nas empresas nas quais Heliete Karam atuou.

À medida que os trabalhadores faziam uso da palavra política (cidadania), a alcoolização diminuía, pois o indivíduo passava a compreender que sua razão de ser no mundo não se esgota no nível da subjetividade, mas se prolonga com um sujeito social, onde sua singularidade e exclusividade têm papel importante para o conjunto.

A pesquisadora propõe uma reorganização nas relações de trabalho, onde a atividade profissional passe a ser fonte de identidade e prazer para quem o executa. Considera a alienação no serviço um dos motivos que deixa o sujeito vulnerável ao álcool. Heliete trabalha sempre com o grupo onde o individuo está inserido e afirma que nossa sociedade está doente na organização do trabalho, gerando um sofrimento que resulta em queixas, adoecimentos, acidentes, uso de drogas, depressão e tantas outras formas de sintomas sociais.

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