20 junho 2011

Conhecer o alcoólico



Conhecer o alcoólico
Extraído do livro “alkoholkrank”
com permissão da Cruz Azul de Alemanha.
A dependência do álcool não é a única que se encontra em expansão particularmente os escalões etários inferiores; bem pelo contrário, surgem a cada passo formas totalmente novas de dependência. O hábito do jogo, do comer, da magreza, do comer e vomitar e outros, são indicativos de que vivemos hoje na “era da dependência”.
Face a este panorama, é vital para a nossa sociedade ultrapassar o modo superficial como tem lidado com o tema dependência, para nos dedicarmos mais em profundidade às causas e implicações do desenvolvimento da habituação. É urgente, questionarmos o preconceito moral largamente difundido entre os nossos contemporâneos contra os dependentes de substâncias aditivas.
Este opúsculo foi escrito com o objectivo de prestar um serviço a três grupos de pessoas visadas:
a) Ao dependente, que oscila continuamente entre as auto acusações e agressões do meio em que vive, o qual, no seu entender, encara a situação com grande incompreensão. Por esta razão, o alcoólico tem necessidade de aprender a conhecer-se melhor, e ao seu comportamento; só assim ganhará a liberdade para poder daí tirar as conclusões necessárias que o levem, e à sua família, de retorno à vida.
b) Aos familiares dos dependentes, que desejariam saber se têm o direito ou mesmo a obrigação de se afastarem daquele que bebe, embora desde sempre tivessem nutrido por ele grande estima. Seja porque ele, entretanto, ultrapassou as marcas do suportável, seja porque o respeito por si próprio e a defesa de certos interesses justificados como, por exemplo, a obrigação de cuidar dos filhos, aparentemente aconselhem que ele seja abandonado definitivamente à sua sorte.
c) Aos colegas, vizinhos ou superiores hierárquicos do dependente, que querem aceder rapidamente a informação, pré-dispostos, a corrigir os seus preconceitos e modos de ver unilaterais.
I. ALCOOLISMO-DOENÇA OU FRACASSO MORAL?
No decorrer dos últimos anos por toda a Europa, fomos literalmente submersos por uma avalanche de acções de esclarecimento sobre os problemas das habituações e das dependências. Conferências, exibição de filmes na televisão e jornadas científicas relacionadas com estes temas tinham por finalidade levar junto do público anónimo e dos profissionais relacionados com estes assuntos os mais recentes conhecimentos e pontos de vista. Os resultados de todos estes esforços foram, porém, assaz modestos. O alcoólico continua a ser segregado pela população em geral, como indivíduo volúvel e dotado de vontade débil, mas o próprio alcoólico e os seus familiares cedo alinham entre os defensores deste mesmo preconceito; e isto e tanto mais é assim, quanto maior é a segurança e até a superioridade aparentadas.
Seria, efectivamente, insuportável para o visado e seus familiares, se os vizinhos adivinhassem as dúvidas dilacerantes e as dolorosas autocríticas. O alcoólico vê-se, assim, entre a esperança e o medo, preso nesta aparência de alternativa: “Serei eu uma pessoa decente apesar de beber imoderadamente e sem parar, ou devo confessar que, como falhado e decadente, deixei de merecer um lugar na comunidade dos cidadãos honestos?” Acontece frequentemente a ex-dependentes que vivem em abstinência serem assaltados por pensamentos desta natureza, por dúvidas desmoralizantes em relação à sua própria pessoa e por complexos de culpa. Mas, o extremo oposto, também é bem conhecido por aqueles que lidam com dependentes. As suas tentativas de auto-justificacão, a que Jellinek chama “sistema de explicações”, revelam até que ponto ainda se encontram acorrentados à sua dependência.
Quanto mais o alcoólico se vê atormentado pelos complexos de culpa, tanto mais, enfaticamente, quer fazer crer que é uma pessoa segura de si, ou até um inocente ofendido, que insiste em que, a origem dos problemas reside unicamente nas outras pessoas. A montanha dos sentimentos de culpa próprios é simplesmente transferida para as pessoas que o rodeiam. A elas é imputada a responsabilidade de tudo o que corre mal e de que são culpados dos conflitos existentes. Este procedimento não só justifica o continuar a beber, como origina um sentimento de auto compaixão simultaneamente dolorosa e agradável, em que a vítima inocente de um meio tão ruim, se lastima profundamente.
  • Sendo assim, qual dos pontos de vista deve, então, ser considerado correcto?
  • A visão científica da doença do alcoolismo desculpabiliza o alcoólico?
    Terá ele que conservar até ao fim dos seus dias a sensação de ser uma má pessoa?
  • Devem considerar-se, ao fim ao cabo, os erros de educação e outras influências sociais nocivas como responsáveis pelo desenvolvimento do hábito?
  • Têm razão de ser as queixas dos familiares e superiores hierárquicos?
  • Não restará outra saída para o alcoólico senão vegetar como um proscrito à margem da sociedade até ao fim dos seus dias?

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