21 junho 2011

Ronald Russel Wallace de Chevalier - O Monstro do Botequim



O MONSTRO DO BOTEQUIM - Marcelo Bortoloti
Tudo ia bem naquela mesa do bar Antônio’s, na antiga Ipanema dos anos 60, até Ronald de Chevalier, o Roniquito, começar a se estranhar com o amigo e cartunista Otelo Caçador.
Briga de bêbados, e como tal, sem motivo aparente nem conseqüências para o dia seguinte. A gota d’água foi quando Roniquito chamou o colega de imbecil. O outro partiu para a agressão. “Os dois caíram no chão, mas era uma briga em câmera lenta, um tédio”, lembra o jornalista e escritor Fausto Wolff, testemunha ocular do ocorrido. Otelo, mais forte, levou a melhor e encheu o adversário de pancadas. Subiu em cima dele, e com o pé na sua garganta, perguntou: “E aí, chega ou quer mais?”. E Roniquito, atrevido: “Mas é claro que chega seu imbecil”.

Era a insolência típica desta figura mitológica que morreu tragicamente em 1983, deixando para trás uma fama de bêbado selvagem, dono de um ‘temperamento bélico’ como descreveu Ruy Castro, e que ofendia a todos pelo simples prazer da discórdia.

Economista e intelectual, Roniquito não deixou nenhuma obra escrita, a não ser uma série de extravagâncias contadas e recontadas pelos cronistas da época. E justamente por ter sido o bêbado que foi, ele ganhou no mês passado uma biografia, escrita pela irmã, Scarlet Moon de Chevalier, jornalista e ex-mulher do cantor Lulu Santos.

“Dr. Roni e Mr. Quito” (Editora Ediouro), traz no título uma piada do cronista Carlinhos de Oliveira, que definia Roniquito como uma versão nacional de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do livro “O Médico e o Monstro” de Robert Stevenson. Sóbrio era uma figura doce e tímida, bêbado virava um crítico feroz, um infame, ou simplesmente um cara engraçado, dependendo do ponto de vista.

Ele próprio tinha consciência de suas duas metades. Às vezes, ao entrar num botequim, ainda de boca seca, se anunciava: “Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns instantes... Roniquito”. Bastavam algumas doses de uísque.

Certa vez, altas da madrugada, foi o segundo que se virou para o amigo Fernando Sabino, que também bebia no bar Antônio’s: “Ô Sabino, quem é melhor, você ou o Nelson Rodrigues?”. O escritor, modestamente, respondeu que era o Nelson, claro. E Roniquito: “E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”

Nasce um boêmio

Carioca por adoção, Ronald Russel Wallace de Chevalier nasceu em junho de 1937, em Manaus. Filho de médico ilustre, veio com a família logo cedo para o Rio. Os pais tinham dinheiro suficiente para colocá-lo nos melhores colégios, e ele foi amigo de infância de Walter Clark, Jô Soares e Ivan Lessa.

Ronald possuía uma inteligência matemática, decidiu cursar economia. Foi orador da turma e um dos pupilos de Mário Henrique Simonsen, o antigo Ministro da Fazenda. Não demorou muito para demonstrar sua habilidade para o álcool e a balbúrdia. O primeiro pileque foi aos 10 anos de idade, um verdadeiro prodígio.

Logo que Ferreira Gullar chegou ao Rio de Janeiro, por volta de 1952, o poeta foi a um debate sobre arte contemporânea. Um dos palestrantes, um paraguaio, falava de seu interesse pelo aspecto metafísico da arte. Neste momento um jovem magro, do fundo do auditório, pediu um aparte. O palestrante concedeu, e ouviu o seguinte: “Eu só queria dizer que a única coisa metafísica que eu conheço é o cu”.

O paraguaio perdeu a fala. “Ele foi tirado da sala, carregado por dois seguranças, e continuou gritando ‘é o cu é o cu’ até a saída. Eu perguntei quem era aquele, e me responderam ‘é o Roniquito, ele vive criando confusão em todo canto’”, conta Gullar, que mais tarde viria a ser amigo da fera. Foi uma das primeiras manifestações do tipo bravio, que como se vê, não tinha critérios.

Piada de salão

Baixinho e franzino, Roniquito possuía coragem demais para seu tamanho, apanhava com regularidade. Sobreviveu tanto tempo pois nunca saia do circuito Ipanema-Leblon, onde era conhecido. Quando chegava em um bar lotado, onde não havia nenhum amigo, costumava dizer: “Este lugar está cheio de ninguém”. Surgia alinhado e dali a pouco estava completamente descomposto, com o enorme queixo apontado para o alto, marca registrada do seu atrevimento.

“Ele chegava a ser inconveniente, mas no fundo era um gozador”, defende Ferreira Gullar. O cartunista Jaguar, 74 anos, é outro sobrevivente daquela brava geração etílica. “Roniquito era um suicida”, define. “Quando não tinha ninguém para esculhambar, esculhambava o copo”, exagera. Certa vez estavam os dois sentados no bar Degrau, depois de extensa via-sacra pelos botecos da Zona Sul, quando se aproxima da mesa uma madame falando maravilhas de um espetáculo que acabara de assistir, do coreógrafo Maurice Béjart. “Eu amo Béjart, ele é divino”, dizia. Roniquito, possuído, desbancou a granfina: “Eu acho Béjart uma merda, eu gosto é de Fudet”.

Muitas histórias que passaram de boca em boca ganharam mais cores que veracidade. O ator e cineasta Hugo Carvana, também integrante do bando, homenageou Roniquito no seu filme “Bar Esperança”, no papel de um bêbado, é óbvio, vivido pelo ator Antônio Pedro. “A gente nunca sabe quais histórias são verdadeiras. Roniquito era um personagem folclórico, e o personagem às vezes é maior que a pessoa”, diz.

Apesar de azedo quando embriagado, o boêmio era dono de grande talento para a esculhambação, e estava sempre cercado de amigos. Por ocasião de sua morte, Paulo Francis publicou um artigo na “Folha de São Paulo”, contando a única vez em que fora destratado por ele. Francis estava numa mesa de bar com amigos, e elogiou o filme “Teorema” do cineasta Pier Paolo Pasolini. Quando se levantou para ir ao banheiro, Roniquito o segurou pelo braço, com essa: “Custou, mas confessou o homossexualismo. Hem?”. Claro que apesar de toda a graça, foi com justiça considerado por muita gente como um tipo insuportável.

O assessor

Ao lado de toda esta atividade boêmia havia também uma produção intelectual relativamente intensa. Ronald de Chevalier era um erudito, altamente versado em poesia e música clássica, e chegou a cometer alguns sonetos. Como economista, trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina, no antigo BNH, passou pela Rede Globo e depois pelo Ministério da Fazenda.

Na TV começou em 1969, quando a Globo se despontava como uma potência. Ronald foi contratado pelo amigo Walter Clark, chefão da emissora na época, embora seu cargo nunca tenha ficado muito claro. Foi ele quem inventou a expressão ‘aspone’, que mais tarde entrou no Dicionário Houaiss: "Indivíduo que exerce um cargo sem função real ou útil". Na sua origem, ‘aspone’ é redução de assessor de porra nenhuma, como Roniquito se definia.

Claro que era um exagero, só para não perder a piada. A cantora Nana Caymmi, amiga inseparável, defende o figurão. “Ele era um homem de idéias brilhantes, e ajudou muito o Walter Clark na época. Naquele clã da Globo não ficava nenhum burro”, decreta. Ruy Castro tem outra versão: “De certa forma, Roniquito era o que Walter Clark, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção. Walter era o contrário”.

Scarlet Moon entrevistou cerca de 50 pessoas entre amigos e conhecidos da época para compor a biografia. Ela fala da infância feliz, dos colegas de escola, dos casamentos e da difícil convivência com o alcoolismo. Por conta do temperamento pirotécnico, a verdade é que o boêmio nunca foi muito bom com as mulheres. Ainda assim, foi casado duas vezes e teve três filhos. “Roniquito sabia que não era um sujeito muito bonito, e isto o irritava um pouco”, sugere Fausto Wolff, que dividiu um apartamento com ele em Ipanema. Nana Caymmi tem uma avaliação mais branda: “Eu era uma admiradora, ficava ao lado dele fascinada com sua inteligência e com as coisas que ele dizia”, conta. Claro que de noite, já com a cara cheia, Roniquito surgia no Chico’s bar, onde Nana se apresentava, dizendo que aquilo tudo era uma porcaria e que o bom mesmo era Beethoven.

Algumas cenas da biografia são dramáticas. Naquela época de sexo, drogas e bossa nova, Roniquito se meteu com cocaína. Certo dia, após um escândalo sem propósito e um flagrante mal escondido, acabou comprometendo sua irmã, que foi presa por porte da droga. O bêbado ainda foi até a delegacia dizer que o culpado era ele, mas não adiantou. Scarlet passou três meses e meio encarcerada. Barra pesadíssima. Taí um vexame difícil de esquecer.

A última do Roniquito

A fase áurea da sua vida boêmia se passou em plena ditadura militar. Ele nunca foi preso porque circulava bem nas rodas de poderosos, embora, dizem, destratasse até mesmo os oficiais. Em seu livro “Ela é Carioca”, Ruy Castro conta que nos idos de 67, Roniquito estava bêbado no Museu de Arte Moderna, quando entrou o general Costa e Silva e seu séqüito para almoçar. A comitiva presidencial passou justamente na hora em que ele procurava um isqueiro no paletó para acender seu cigarro. Segue o Ruy: “Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: 'O senhor tem fogo?’. Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele”. O tipo foi abotoado mas não chegou a ir em cana.

Quando aprontava além da conta, Jaguar lembra que ele era expulso do Antônio’s por um tempo, e ficava de castigo bebendo no boteco vizinho. Numa destas, embriagado e sozinho, foi atravessar a rua e acabou pego por um fusca em alta velocidade. O motorista foi embora sem prestar socorro. Um ônibus que vinha atrás o levou para o hospital Miguel Couto, onde foi operado para reconstituir o rosto, a perna e outros pedaços do corpo. Em frangalhos na maca, teve fôlego apenas para pedir uma vodka para a enfermeira.

Depois disto Roniquito nunca mais foi o mesmo. Vivia de muletas, se automedicava e continuou bebendo. Morreu em janeiro de 83, com 45 anos de idade. “Muito moço”, concordaram os jornais da época. Podia ter sido um intelectual de sucesso. Não foi, vivia de porre, mas ainda assim gozou da amizade de muita gente com talento e poder, e sempre que possível jogou merda no ventilador. Um herói. “É um mistério, morremos de saudade de um sujeito que vivia nos esculhambando”, arremata Jaguar. 

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