14 junho 2011

Tratamento Farmacológico - Dr. Drauzio Varella


Tratamento farmacológico

Drauzio– No passado, o único tratamento farmacológico do alcoolismo era constituído pelo célebre Antabuse, um remédio que as mulheres punham na comida dos maridos e que provocava uma reação terrível quando eles bebiam. Muitos achavam que a bebida estava lhes fazendo mal e paravam de beber. Esse tratamento ainda aceito ou é considerado um método pré-histórico?
Ronaldo – O Dissulfiran, que é o componente do Antabuse, continua com a aprovação do FDA e ainda é usado se a pessoa estiver de acordo em receber esse tipo de medicamento. É um remédio bom e barato para o tratamento do alcoolismo. Quando o paciente concorda com o uso do Dissulfiran e entende seu mecanismo de funcionamento, ele serve como breque psicológico diante da bebida. De fato, antigamente, as mulheres colocavam esse remédio na comida dos maridos sem seu conhecimento, mas o mais comum era eles deixarem de comer em casa e continuarem bebendo no bar.
Hoje existem novos medicamentos que diminuem a vontade de beber. Pode parecer estranho, mas é exatamente isso que fazem. Eles agem sobre a ação do álcool no cérebro e não só diminuem a vontade de beber como diminuem os efeitos agradáveis do álcool.

Drauzio – Eles intensificam também os efeitos desagradáveis?
Ronaldo – Não chegam a provocar efeitos desagradáveis, mas interferem no efeito reforçador do álcool. Mais de 15 estudos atestaram o efeito do Naltrexone (nome da substância química desse remédio). Sob o efeito desse medicamento, as pessoas sentem menos os efeitos agradáveis da bebida e perdem a vontade de continuar bebendo.

Drauzio – É uma droga fácil de administrar? Provoca efeitos colaterais desagradáveis?
Ronaldo - Na verdade, o Naltrexone é uma das drogas mais seguras em psiquiatria. O paciente toma um comprimido de 50mg por dia e quase não há efeitos colaterais. No começo do tratamento, ele pode sentir um pouco de náusea que desaparece em poucos dias. Seu efeito sobre a vontade de beber não é absoluto, mas no mínimo dobra a chance de a pessoa permanecer abstinente ao longo de semanas ou, na pior das hipóteses, a beber menos. O Naltrexone não representa a cura para o alcoolismo, mas melhora muito a evolução do quadro.

Drauzio – Mas é importante que o dependente queira tomar o remédio para o tratamento ter sucesso.
Ronaldo – Esse é o grande problema: a adesão ao tratamento. É preciso convencer o paciente a tomar o remédio por vários meses ininterruptamente. A irregularidade no uso da medicação prejudica os resultados e desestimula o paciente. Há pessoas que tomam o remédio um dia ou dois, param porque beberam ou vão beber e depois voltam a tomar a medicação, o que prejudica seriamente o tratamento.

Drauzio – Além do Naltrexone existem outros medicamentos que ajudam a tratar do alcoolismo?
Ronaldo – Existe o Acamprosato, muito utilizado na Europa e que possivelmente será aprovado pelo FDA. Ele diminui também a vontade de beber. Sua ação farmacológica é um pouco distinta e mais prolongada do que a do Naltrexone.
Recentemente, foi publicado um estudo sobre um medicamento anticonvulsivante chamado Topimarato, utilizado em outros quadros psiquiátricos que parece diminuir também a vontade de beber e aumentar os períodos de abstinência por semanas.
Esses quatro medicamentos – Dissulfiram, Naltrexone, Acamprosato e Topiramato - são bons coadjuvantes nos tratamentos do alcoolismo, pois ajudam no processo de abstinência e na prevenção das recaídas.



Dr. Ronaldo Laranjeira é médico, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Escola Paulista de Medicina na Universidade Federal de São Paulo e com PhD em dependência química na Inglaterra

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